REACTOR ENTREVISTA FRANCISCO LARANJO

Outubro 9, 2007

Depois de concluir a licenciatura em Design de Comunicação na ESAD, Francisco Laranjo colaborou com o estúdio de Sagmeister antes de rumar a Londres onde actualmente conjuga a sua investigação de mestrado no Royal College of Art com uma série de outros projectos relacionados com a teoria e a prática do design confirmando-se como um dos mais estimulantes designers da sua geração.

REACTOR: No primeiro post do Reactor afirma-se que “não há design sem diálogo”, enquanto profissional do design que diálogos lhe interessam estabelecer? Com quem? Sobre o quê?

FRANCISCO LARANJO: De facto, a palavra “dialogar” está na génese da disciplina, uma vez que é parte essencial do acto de “comunicar”.
Pessoalmente, interessam-me vários níveis de diálogo, que são passíveis de existir no âmbito do design. Tenho particular interesse em debruçar-me sobre o diálogo com outros profissionais e investigadores de áreas externas ao design, mas também dentro das esferas da disciplina. Isto, com vista a poder estabelecer um diálogo com a audiência em vez investir num monólogo que se vem arrastando, cada vez mais, entre designers e entre o público. Interessam-me diálogos sobre cultura no design que possam ajudar a que haja contextualização, a que exista espaço para interpretações. Interessa-me discutir projectos que evoluam nesta direcção.
Penso que o design deve ter a responsabilidade de promover diálogo sobre monólogo.

R. : A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Como vê esta indefinição em torno da disciplina?

F. L. : Entendo que a palavra “rapidez” é a grande causadora do actual panorama do design, nomeadamente pelo seu estado híbrido e difuso.
Tem-nos sido possível observar nos últimos quinze anos, que a disciplina do design de comunicação foi passando por diversos estágios. Alarmantemente, cada vez mais rápido. De artes gráficas, para artes visuais, passando por design gráfico, design multimédia, artes digitais, entre outros, criam uma neblina densa de ramificações instantâneas em torno da direcção a seguir, mas sobretudo da origem (e história) da disciplina.
Numa realidade cada vez mais tecnológica, a verdade é que o design tem dificuldade em escapar à inevitabilidade de caminhar à velocidade imposta pela tecnologia. Simultaneamente, tudo o que nos rodeia é também difuso; publicidade, informação e comunicação esboroam-se na paisagem. Este ambiente influencia não só o público, mas também o designer.
Quanto mais a audiência refina os seus “desejos”, sem tempo e cheia de alienação, mais o designer tem que se “multiplicar”. Todos estes condimentos, levam a que a disciplina seja cada vez mais difícil de circunscrever, tornando-se híbrida e nómada.
Vejo esta indefinição com preocupação, pois o sentimento de pertença e identidade é normalmente perdido nesta “arena”, tornando-se extremamente difícil de encontrar. No entanto – apesar da palavra “procura” ser condição essencial do design – pertença e identidade são valores essenciais, para o designer e para qualquer ser humano.
De repente, instala-se no ar um sentimento de que não há mais regras, tudo pode ser de todos e todos podem ser tudo, sendo a palavra colaboração o mote para navegar num território quase impossível de analisar. Esta indefinição em torno da disciplina, que faz do designer um ser híbrido, tende a eliminar qualquer tipo de especialização. No entanto, enquanto especialistas, somos capazes de fazer e responder a questões com uma profundidade muito maior e pertinência totalmente diferente à que nos permite uma prática híbrida.
Vivemos sem dúvida, num momento de grande questionamento de identidade, de particular, delicada e decisiva importância para o futuro da disciplina.

R.: Se lhe pedisse uma definição de design…

F. L. : No seguimento das questões anteriores, deparo-me com a quase impossibilidade de dar uma resposta. Uma definição de design que se pretenda fazer hoje, nunca poderá ser estanque e muito menos definitiva. A definição de design é hoje menos universal do que nunca. Ao mesmo tempo, tudo é design e design é a solução para tudo. Design é um cliché, uma moda.
Sem querer estar a pisar terreno por demais explorado – e bem – por diversos críticos, profissionais e academistas, parece-me que hoje, a definição de design é a de uma disciplina que estuda a cultura, sociedade e percepção, cooperando com as mais diversas áreas de actividade, com a finalidade de gerar “mediações linguísticas” num determinado contexto.

R. : O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto um “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nesta distinção?

F. L. : Esta distinção continua a ter um trono confortável no mundo do design e da comunicação. Não me parece fazer sentido que haja uma distinção, pois o designer será sempre um agente social, mesmo que se tente fazer passar ou seja “forçado”/ conduzido a ser agente do mercado.
É normal que esta distinção continue a existir numa ultra-rápida realidade económica que privilegia o consumidor em detrimento do cidadão. Quando o design manipula informação, mediando a sua interpretação, estará sempre a ser um agente social. O designer será sempre um agente social pois usa “ferramentas” tais como a linguagem e a percepção (sentidos), sendo estes afinal, vectores primordiais do que chamamos sociedade e de tudo o que nos rodeia.
Parece-me importante que os conteúdos programáticos apontem cada vez mais nesta direcção, fazendo com que exista esta consciencialização em estudantes e profissionais – e, igualmente importante, no público em geral.
Hoje, o único “ismo” que sobrevive, é o pluralismo.

R. : Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante mostrarmos que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais

F. L. : Questões de valor serão sempre subjectivas, mas podem ser progressivamente instituídas – sobretudo a nível do ensino do design.
A rapidez que nos rodeia, força a que tanto o designer como o cidadão, corram sozinhos. Esta é uma analogia que sugere que o eu é muito mais incitado do que o nós. Deste modo, torna-se infrutífera a tentativa de promover colectividade e comunidade sobre individualidade. Depois, a ética individual estará sempre intimamente ligada à educação pessoal, percurso académico e até mesmo personalidade.
Contudo, é importante sublinhar que habitamos numa complexidade social que torna a tentativa de definição de valores universais do design, um projecto condenado ao insucesso. Por isso, entendo ser urgente que a ética disciplinar contamine positivamente a ética individual através da promoção de valores que incidam sobre análise contextual e sobre a descoberta da particularidade na complexidade e vice-versa. É pertinente criar fortes bases de descoberta de métodos de investigação, nos estudantes e nos profissionais. Desta forma, será mais provável que um questionar de identidade contínuo possa ser parte integrante de uma prática projectual.

R. : Ainda há espaço para utopias no design? O Enzo Mari dizia que o design é um “acto de guerra” e o Brody, há umas semanas atrás, dizia que usamos poucas vezes a palavra revolução

F. L. : Não me parece que o design possa ser apelidado de “acto de guerra”, se bem que por vezes o seja e deva ser. Julgo também que a palavra revolução continua muito ausente do design por causa da hibridez que foi atrás mencionada, pois existe a obsessiva necessidade de ir em todas as direcções simultaneamente. Isto provoca estagnação. Isto congela o “movimento”.
Neste sentido, parece-me que a relação hibridez/ superficialidade/ conformismo é quase inevitavelmente o resultado, pois um “acto de guerra” nasce normalmente de algo que é profundo: seja um valor, uma crença, um descontentamento, uma reacção, uma diferença.

R. : Qual é a sua “utopia pessoal”?

F. L. : Não tenho nenhuma utopia em particular. De qualquer forma, tenho o desejo de que o futuro da disciplina não continue a ser uma duvidosa utopia. Tenho o (utópico?) desejo que a actual geração de designers possa inverter a tendência de uma área que começa a ser pré-oca e que se auto-cancele, cada vez que se abstrai do contexto, do cidadão e se foca no consumidor e principalmente em si própria.

R. : Parece-lhe que a blogosfera tem contribuído para o desenvolvimento de um debate sobre em torno do design?

F. L. : Sem dúvida alguma que sim. Nos últimos seis ou sete anos nasceram vários blogues que trouxeram (e trazem) uma contribuição fundamental para a prática e para o ensino do design. Um pouco por todos os continentes, a facilidade de partilhar e unir profissionais de grande valor com o propósito de discutir problemas contemporâneos só podem gerar uma grande contribuição para a disciplina. Felizmente, Portugal não foi excepção.

R. : Quais são os seus blogues de referência?

F. L. :
Mediamatic
CTheory
Design Observer
InformationDesign
Rhizome

R. : Que pergunta acrescentaria a esta entrevista? E que resposta ela lhe mereceria?

F. L. : No seguimento das anteriores afirmações, deixo apenas uma questão/ desafio, propositadamente sem resposta: será que a “especialização” do designer (em oposição ao profissional híbrido), o impede de poder intervir noutras áreas?
Fica o desafio.

Uma resposta to “REACTOR ENTREVISTA FRANCISCO LARANJO”

  1. Esta foi uma das melhores entrevistas que li aqui no Reactor! Muito bem.
    Continuação de bom trabalho,

    Joana Couto Moura

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