FESTIVAL SUDOESTE TMN 2007

Agosto 1, 2007

 

O MAIOR FESTIVAL DE VERÃO ESTÁ REPLETO DE BOAS SUPRESAS!!
2, 3, 4 e 5 de Agosto de 2007 na Zambujeira do Mar

THE CINEMATICS

Ah, Glasgow, tens tanto por que responder, como diria Morrissey, esse outro grande romântico. Neste caso, falamos dos The Cinematics, mais uma banda tão brilhantemente conseguida que nos faz pensar que é que colocam na água da Escócia. The Cinematics, então: quatro escoceses que começaram, como quase sempre nestes casos que terminam bem, por fazer versões dos The Clash, e mais tarde perceberam que tinham que escrever as suas canções. E se bem o pensaram, melhor o fizeram – “A Strange Education” (2007), o álbum de estreia, constitui uma lição bem prática na arte de fazer canções cativantes, simples, luminosas, tão britânicas como o chá das cinco. A produção de Stephen Hague, veterano de álbuns de nomes acima de quaisquer suspeitas (como New Order e Pet Shop Boys, por exemplo), dá o remate final de distinção e sedução a um disco que mostra uma banda a correr um sério risco de chegar às alturas dos Franz Ferdinand. Que também vêm de Glasgow… Um disco que colocará os presentes no dia 3 de Agosto no Festival Sudoeste TMN com vontade de vestir uma gravata fininha e um blazer às riscas. Elegância pura, estes The Cinematics.

Site Oficial: www.thecinematics.com

DAMIAN MARLEY
O apelido é curto, mas tem um peso extraordinário: Marley, de Bob. Damian é o filho mais novo da grande estrela do reggae, e aquele que mais perto está de alcançar os objectivos do progenitor. É Damian que confessa, ao falar das 14 canções de amor e guerra que compõem o último álbum “Welcome to Jamrock”: “Estamos a pegar no testemunho dos mais velhos que fazem música rebelde, somos os novos líderes da ‘old school’.” “Welcome to Jamrock” exibe uma panóplia estonteante das realidades das ruas da Jamaica, em que a violência, a pobreza e a marginalidade são rainhas. É, como diz aquele a quem chamam Jr. Gong, o som da verdade. Porque a verdade ao ser dita permite que as soluções para os problemas mostrem as suas faces. Sonoramente, é um disco que congrega de uma forma consistente muitos amores de portos diferentes. Antes de mais, o reggae clássico dos anos 70, ao lado do actual dancehall mais radical. Mas também não faltam contribuições vindas directamente da América onde Damian passa tanto tempo – ouve-se aqui muito R&B e hip hop. Quando chega ao palco, o MC/toaster Marley comanda, com benevolência mas pulso firme, as canções e os espectadores. São espectáculos de procura de verdade num século onde ela anda escondida.

CASSIUS

Na primeira madrugada do Festival Sudoeste TMN vamos todos ter outra vez 15 anos. A responsabilidade de tão grande tarefa de rejuvenescimento e alegria fica para os franceses Cassius, que fecham, já bem tarde, o dia 2 no palco principal. Nos pratos da dupla Philippe Zdar e Hubert Blanc-Francart vai estar o último álbum, exactamente “15 Years”. O prato principal a nível musical vai juntar alguma da melhor música de dança das últimas décadas: o duo gaulês recupera a house e o techno e junta-lhes a melhor sensibilidade pop e a implacável produção de origem electrónica. Quer atrás dos “decks” em DJ sets quer comandando uma banda ao vivo, como acontecerá na Zambujeira do Mar, põem qualquer multidão a dançar enquanto apimentam os ritmos com “riffs” de guitarra ou pedaços de dub e jazz. São sessões exuberantes em que sabemos que regularmente seremos surpreendidos com sons inesperados a adornar a base dançante – só não sabemos se serão um falseto gospel ou um cântico africano. O Sudoeste orgulha-se assim de apresentar os três grandes nomes do “french touch” que perfumou o final do milénio. Depois de Air em 2004 e Daft Punk em 2006, recebe agora os Cassius. “Bon soir”.

THE NOISETTES

Os The Noisettes partem de Londres com uma ideia nas suas cabeças: confundir e exasperar as cabeças e os ouvidos de quem os ouve. Expliquemo-nos: a sua música ostenta pedaços tão diversos como free jazz e guitarras speedcore. Às vezes ao mesmo tempo… São três. A vocalista e baixista Shingai Shoniwa é de origem zimbabweana, sobrinha de um dos Bundhu Boys e dona de uma senhora voz, que usa como uma cantora gospel bêbada. A sua prevista carreira de actriz terminou quando se juntou ao guitarrista Dan Smith, que aos 13 anos decidira aprender guitarra para poder juntar-se à banda de Jimmy Page. O terceiro elemento desta estranha troupe é um maníaco baterista, que clama ter passado anos da sua juventude sozinho em casa a tocar horas a fio até um determinado som de bateria lhe parecer perfeito. Devido aos acasos das fusões acabaram por se achar no rol da mítica editora Motown. Diana Ross provavelmente desmaiaria ao ouvi-los, mas um iconoclasta revolucionário e romântico como Marvin Gaye apreciaria. E o álbum de estreia, “What’s the Time Mr. Wolf?”, ainda pisca o olho a “Pulp Fiction” e ao grande Harvey Keitel. Como não adorar estes barulhentozinhos?

JAMES

Se existem bandas talhadas para animar, alegrar e emocionar grandes festivais, os James são claramente uma delas. Por isso, que felicidade para o Sudoeste TMN 2007 poder anunciar que o sexteto de Manchester está de novo reunido, após seis anos de costas voltadas, de novo a dar concertos – dia 5 de Agosto na Zambujeira –, e ainda a gravar novas canções. “Revitalizados” é a palavra utilizada pelo vocalista Tim Booth, que percebeu que colocar de novo em acção bandas separadas não é “uncool”, após assistir a concertos dos Pixies e de Bruce Springsteen com a renovada E Street Band. Melhores pontos de comparação, aliás, não poderia haver, para uma banda que conseguiu de forma brilhante superar as iniciais sombras lançadas pelos conterrâneos Smiths e desabrochar como uma grande máquina de juntar melodias serpenteantes, gosto pela experimentação (via produção de Brian Eno, por exemplo) e uma enorme força ao vivo. “Sit down”, relembremos, é um dos grandes hinos colectivos. Nela, os James celebram uma afirmação de solidariedade que só não conseguirá provocar arrepios (nem que seja um bocadinho) aos mais empedernidos cínicos. Um concerto desta banda é para quem gosta de estar em comunidade, em transmissão de vibrações. Mas, também, o Sudoeste TMN está recheado desta boa gente. Que bom, felicidade para os James e para todos nós.

CAMERA OBSCURA

Não é de hoje que bandas escocesas raptam o sol californiano e as harmonias byrdsianas e as fazem suas. Os seis Camera Obscura, de Glasgow, estão mesmo nessa. Constroem temas inocentes, abanadinhos, alegres, que nos levantam a moral. Numa palavra, bons para embalar o Verão. O baixista e fundador Gavin Dunbar cedeu recentemente a um livro de gastronomia uma receita sua: paella vegetariana (sem carne, chouriço ou frango, substituídos por tofu), ideia surgida após as muitas visitas a Espanha – a sua editora está sediada em Madrid. E o primeiro single extraído do álbum “Let’s Get Out of This Country” intitula-se “Lloyd, I’m ready to be heartbroken”, homenagem ao single de Lloyd Cole de 1984. Eruditos, divertidos, melódicos, bem cientes da história da pop em inglês, e com um pé na Escócia e outro na Península Ibérica. É necessário conversar com eles na tenda da Zambujeira do Mar.

OJOS DE BRUJO

 

O guitarrista Ramon Giménez encarna a sua Barcelona. Artística, plural, vibrante, fusionista, livre. De origem cigana, Ramon é também a pedra-base onde assentam as fundações dos Ojos de Brujo, um colectivo que pega no flamenco tradicional e o leva para outros planos. De uma forma ou outra, o projecto existia desde princípios da década de 90, mas só em 1999 sai o primeiro álbum, “Vengue”, em que a viola de Gimenez se juntava, por exemplo, aos sons tirados pelos “decks” do DJ Panko. Electrónica, percussões orientalistas, outras formas tradicionais da Europa, como o fandango, tudo é material para estes bruxos conseguirem um som único. Ramon, um homem apaixonado por todas as formas de arte – o colectivo agrega também fotógrafos, realizadores ou desenhadores – traz na bagagem o último “Techarí”, de 2006. Na planície do Alentejo, larga a rebeldia e liberdade das ruas, a sensualidade do flamenco, a magia dos ritmos do mundo. Porque, como ele diz, “a fusão faz parte da vida, a pureza não existe.”

 

MANU CHAO Radio Bemba Sound System

Manu Chao é o último grande nome a ser confirmado para a edição de 2007 do Festival Sudoeste TMN. O multifacetado artista actua na noite de dia 2 de Agosto (quinta-feira), fechando o palco principal do recinto da Zambujeira do Mar. Estão então preparadas as condições para que comece a grande festa na planície alentejana, pois Manu Chao e a “troupe” da Radio Bemba Sound System que o acompanha tratam da alegria, do combate e da comunhão de espírito como questões essenciais. Sim, Manu Chao é um “performer” que se encaixa perfeitamente no ambiente e filosofia de boas vibrações do Festival Sudoeste TMN.

A música que salta do seu palco contém imperiosas ordens para dançar, cantar e rir e é prova dos melhores resultados que produzem as mestiçagens artísticas. Falamos de farrapos de músicas populares de todo o Mundo, folclore do espectro francófono e castelhano, de ritmos das Áfricas negras e magrebinas, ska, punk e pop, tudo misturado num pote de pronúncias, e muita, tanta inventividade.

A visita do antigo chefe da quadrilha Mano Negra a Portugal é tanto mais de aplaudir conquanto Manu Chao tem nos últimos anos adoptado uma postura discreta. Em 2007, a Zambujeira do Mar arrisca-se a ser um dos pouquíssimos locais da Europa a contar com a presença do comandante da desbunda – até agora, apenas está confirmado um outro espectáculo, em Espanha. Para além disso, o muito esperado novo álbum, “La Radiolina” é o primeiro registo de originais em seis anos. Efectivamente, é uma honra tê-lo connosco.

GILBERTO GIL

Se fosse elaborada uma lista dos dez músicos mais importantes da história do Brasil, Gilberto Gil estaria certamente nela. E o Festival Sudoeste TMN tem o prazer de oferecer um privilégio a quem estiver na Zambujeira do Mar: o privilégio de poder assistir a um concerto de Gilberto Gil. Um espectáculo do também ministro da Cultura do Governo do Brasil é, de uma só vez, uma festa, uma aula, uma viagem no tempo. Uma festa, porque Gilberto Passos Gil Moreira é um homem de um coração e uma alegria imensas, que recebe todos como irmãos. Uma aula, porque somos apresentados a algumas das mais brilhantes formas de utilizar em canções as possibilidades da língua portuguesa. E uma viagem no tempo, porque o baiano carrega no corpo a mestiçagem das músicas do seu país, e das que lhes deram origem. É todo um campo em que entram, e são apenas exemplos, formas tribais da África Ocidental, o samba, o funk, o reggae, a canção romântica pós-guerra e a bossa nova. Afinal, a mesma sede de procura que o levou a ser um dos pais fundadores do movimento tropicalista. Gilberto Gil é também, desde o exílio em Londres, ordenado pela ditadura militar em 1969, um animal político. Quando está em cima de um palco a cantar e a tocar o seu violão, juntam-se o artista prolífico e o político que luta pela diversidade cultural e pela conservação dos patrimónios ameaçados. No conjunto, são facetas que formam um homem completo, que se revela numa voz hipnótica que nos leva – e fazemos a devida vénia ao autor desta frase – “nesse itinerário da leveza pelo ar”. O autor, claro, é o próprio Gilberto Gil. A voz, a letra, a música, o ambiente para o Sudoeste TMN são dele. O privilégio é nosso.

MAYRA ANDRADE

A etiqueta “world music” tem sido usada e abusada, mas no caso da cabo-verdiana Mayra Andrade tem toda a justificação. Primeiro, porque voga por formas tradicionais de música de um país usualmente fora do radar. Depois, porque, com uma vivência que passa por Cuba, Senegal e Angola, para além de Cabo Verde, é realmente uma música do mundo que sai da sua voz. Para já, no álbum “Navega” coloca a sua voz firme e materna em mornas, funanás e coladeras, arranjados em modos acústicos, muito simples. Para Mayra brilhar. Ela sabe muito bem o que quer. Afirma que desde os 11 anos que lhe pediam para gravar um disco, mas o objectivo supremo não era gravar um álbum, era, sim, “evoluir, aprender, enriquecer a música que fazemos”. Canta quase sempre em tons de português, mas já fez um dueto francófono com Charles Aznavour. O Brasil de Caetano e Chico – com quem já partilhou palcos – também é um horizonte a que deita alguns olhares. Não conseguimos evitar o nome de Cesária Évora – é incontornável. Mas se as duas cantoras têm antecedentes sociais perfeitamente diversos, de ambas as vozes salta a tradição mesclada de futuro da música do seu arquipélago.

 

I’M FROM BARCELONA

Não são de Barcelona, claro. São de Jonkoping, pequena cidade do Sul da Suécia. E são muitos, muitos. Podem chegar a ser 29, tantos como os que gravaram os primeiros “demos” no apartamento de Emanuel Lundgren, compositor e o homem que tenta dirigir este colectivo com tendências para o caos. A ideia, aliás, era tocar as canções num único espectáculo e ficar por ali. Mas essa grande sala de estar para bisbilhoteiros chamada Internet entrou em cena: em poucos meses o passa-palavra tinha levado a milhares de “downloads” do “site” da banda. Seguiu-se o álbum “Let Me Introduce My Friends”. Titulo premonitório, pois os I’m From Barcelona são antes de mais amigos, e depois músicos. Tocam pop/rock de câmara, com muitos coros, sopros e instrumentos excêntricos como o cavaquinho. São celebratórios, digamos que primos de uns Polyphonic Spree. A diferença é que os suecos são bem mais boémios e experimentalistas na orquestração das canções. E têm um refinado sentido de humor: o nome do grupo provém de uma frase recorrente de Manuel, o criado espanhol da série cómica inglesa dos anos 70 “Fawlty Towers”.

CASSIUS

Na primeira madrugada do Festival Sudoeste TMN vamos todos ter outra vez 15 anos. A responsabilidade de tão grande tarefa de rejuvenescimento e alegria fica para os franceses Cassius, que fecham, já bem tarde, o dia 2 no palco principal. Nos pratos da dupla Philippe Zdar e Hubert Blanc-Francart vai estar o último álbum, exactamente “15 Years”. O prato principal a nível musical vai juntar alguma da melhor música de dança das últimas décadas: o duo gaulês recupera a house e o techno e junta-lhes a melhor sensibilidade pop e a implacável produção de origem electrónica. Quer atrás dos “decks” em DJ sets quer comandando uma banda ao vivo, como acontecerá na Zambujeira do Mar, põem qualquer multidão a dançar enquanto apimentam os ritmos com “riffs” de guitarra ou pedaços de dub e jazz. São sessões exuberantes em que sabemos que regularmente seremos surpreendidos com sons inesperados a adornar a base dançante – só não sabemos se serão um falseto gospel ou um cântico africano. O Sudoeste orgulha-se assim de apresentar os três grandes nomes do “french touch” que perfumou o final do milénio. Depois de Air em 2004 e Daft Punk em 2006, recebe agora os Cassius. “Bon soir”.

THE NOISETTES

Os The Noisettes partem de Londres com uma ideia nas suas cabeças: confundir e exasperar as cabeças e os ouvidos de quem os ouve. Expliquemo-nos: a sua música ostenta pedaços tão diversos como free jazz e guitarras speedcore. Às vezes ao mesmo tempo… São três. A vocalista e baixista Shingai Shoniwa é de origem zimbabweana, sobrinha de um dos Bundhu Boys e dona de uma senhora voz, que usa como uma cantora gospel bêbada. A sua prevista carreira de actriz terminou quando se juntou ao guitarrista Dan Smith, que aos 13 anos decidira aprender guitarra para poder juntar-se à banda de Jimmy Page. O terceiro elemento desta estranha troupe é um maníaco baterista, que clama ter passado anos da sua juventude sozinho em casa a tocar horas a fio até um determinado som de bateria lhe parecer perfeito. Devido aos acasos das fusões acabaram por se achar no rol da mítica editora Motown. Diana Ross provavelmente desmaiaria ao ouvi-los, mas um iconoclasta revolucionário e romântico como Marvin Gaye apreciaria. E o álbum de estreia, “What’s the Time Mr. Wolf?”, ainda pisca o olho a “Pulp Fiction” e ao grande Harvey Keitel. Como não adorar estes barulhentozinhos?

CAMERA OBSCURA

Não é de hoje que bandas escocesas raptam o sol californiano e as harmonias byrdsianas e as fazem suas. Os seis Camera Obscura, de Glasgow, estão mesmo nessa. Constroem temas inocentes, abanadinhos, alegres, que nos levantam a moral. Numa palavra, bons para embalar o Verão. O baixista e fundador Gavin Dunbar cedeu recentemente a um livro de gastronomia uma receita sua: paella vegetariana (sem carne, chouriço ou frango, substituídos por tofu), ideia surgida após as muitas visitas a Espanha – a sua editora está sediada em Madrid. E o primeiro single extraído do álbum “Let’s Get Out of This Country” intitula-se “Lloyd, I’m ready to be heartbroken”, homenagem ao single de Lloyd Cole de 1984. Eruditos, divertidos, melódicos, bem cientes da história da pop em inglês, e com um pé na Escócia e outro na Península Ibérica. É necessário conversar com eles na tenda da Zambujeira do Mar.

OJOS DE BRUJO

 

O guitarrista Ramon Giménez encarna a sua Barcelona. Artística, plural, vibrante, fusionista, livre. De origem cigana, Ramon é também a pedra-base onde assentam as fundações dos Ojos de Brujo, um colectivo que pega no flamenco tradicional e o leva para outros planos. De uma forma ou outra, o projecto existia desde princípios da década de 90, mas só em 1999 sai o primeiro álbum, “Vengue”, em que a viola de Gimenez se juntava, por exemplo, aos sons tirados pelos “decks” do DJ Panko. Electrónica, percussões orientalistas, outras formas tradicionais da Europa, como o fandango, tudo é material para estes bruxos conseguirem um som único. Ramon, um homem apaixonado por todas as formas de arte – o colectivo agrega também fotógrafos, realizadores ou desenhadores – traz na bagagem o último “Techarí”, de 2006. Na planície do Alentejo, larga a rebeldia e liberdade das ruas, a sensualidade do flamenco, a magia dos ritmos do mundo. Porque, como ele diz, “a fusão faz parte da vida, a pureza não existe.”

CYPRESS HILL

Dos primórdios da história do rap (ou seja, 1988), sobrevivem, fortes, empertigados, guturais e pedrados, os Cypress Hill. Da muito pouco salubre área de South Central, onde Los Angeles acolhe os deserdados das minorias que não atingiram o “american dream”, os Cypress Hill partiram à conquista do mundo. Que feitos conseguiram na sua cruzada? A abrir, ser a primeira banda de hip hop/rap latina com fama global. Depois, gizar uma amálgama gostosa que cozinhavam num caldeirão onde cabiam samples de guitarras rock, vozes nasaladas ou de barítono, e um pré-G-funk bamboleante. Ou, simplesmente, criaram um dos sons mais reconhecíveis da história do grande género urbano negro norte-americano. Para ainda darem mais nas vistas, defendiam, abertamente e em alto som e nas suas letras, a legalização da “marijuana”. Junte-se a tudo isto uma violência de cartoon (há quem lhe chame os Scooby Doo do rap…), e temos uns verdadeiros super-heróis. Agressivos mas com bom coração, sarcásticos mas conscientes, provocadores mas com objectivos, os Cypress Hill que vêm ao Sudoeste são devedores do nosso respeito. Um grande espectáculo em perspectiva. Desde que não cheguemos a nossa mão até muito perto deles. Eles ladram e, podem muito bem morder.

Site Oficial: www.cypresshill.com

OUTLANDISH

Quando se pensa em Dinamarca a nível musical, o que primeiro vem à mente é o “euro-bubblegum-pop” de uns Aqua ou Whigfield. Agora, tal situação está a mudar, e a “culpa” pertence em grande parte aos Outlandish. Que são três amigos de infância, filhos de emigrantes, com raízes em Marrocos, Cuba e Paquistão. E que fazem arte pensada que resulta directamente das suas experiências enquanto seres em encruzilhadas. Em cruzamentos de culturas, de maneiras de estar na vida, de formas de produzir e veicular música. Lenny, Waqas e Isam juntam à sua formação juvenil a ouvir hip hop os sons que lhes correm pelas veias familiares, sejam eles das bandas sonoras de Bollywood, ritmos latinos ou samples de cordas do Magrebe. Falam de guerra, de pessoas que perdem casas, que perdem memórias. “I only ask of God”, o single que brilha no terceiro álbum “Closer Than Veins”, é uma mostra certeira do que são estes Outlandish, fincando os pés num ponto instável que medeia entre a humildade e a indignação, entre um trip-hop adulto e batidas de guerra. Experiências para serem partilhadas no Sudoeste TMN.

Site Oficial: www.outlandmoro.com

BURAKA SOM SISTEMA

Se em 2006 os Buraka Som Sistema eram um dos segredos menos bem escondidos dos meios musicais esclarecidos de Lisboa, em 2007 são um fenómeno a varrer à sua frente o resto do país e, esperançosamente, do Mundo. Não que à partida se prevesse um resultado tão brilhante. Afinal, o público nacional é em geral avesso a sons dificilmente catalogáveis, e mais ainda quando oriundos de ritmos de dança negra. Mas o “kuduro progressivo” deste colectivo de produtores, MCs e vocalistas da Grande Lisboa revela-se tão contagioso, tão de lamber os beiços, que mesmo o mais circunspecto ouvinte não resiste a abanar a anca. Kuduro, para quem ainda não sabe, é um género de música de dança urbana oriundo de Angola nos anos 90. Os Buraka Som Sistema pegam nas batidas do kuduro, juntam pedaços de breakbeats e do hip hop, e por cima colam vozes vindas da cova ou da cama. E fica um género novo, próprio da nova Lisboa. Apetece dançar, gritar, incitar, provocar. Como Patty faz em “Yah!”, um dos temas mais exportáveis, e que já roda em pistas de dança exigentes do Reino Unido. Bem-vindos, então, os lídimos representantes da mestiçagem das noites da capital. A euforia é toda vossa.

Site Oficial: www.myspace.com/burakasomsistema

MARY ANN HOBBS

Mary Ann Hobbs tem a responsabilidade de levar até à BBC Radio One as últimas novidades em música electrónica e urbana. O nome do programa diz tudo: “Experimental”. A veterana DJ e jornalista musical aposta forte nas intrincadas misturas das polirritmias e cavernosidades do dubstep ou do grime – Burial ou Skream são dos nomes da frente expostos por Mary Ann. O som da Londres nocturna e multicultural está pronto para ser mostrado no Palco Planeta Sudoeste.

Site Oficial: www.myspace.com/maryannehobbs

BONDE DO ROLÉ

Os miúdos excêntricos brasileiros estão a tomar conta do mundo. Depois das Cansei de Ser Sexy, é a vez dos Bonde do Rolé. São três, são muito eléctricos, mas não são um trio eléctrico baiano de axê. Vêm de Curitiba, uma cidade onde é bom viver. E Rodrigo Gorky, Pedro D’Eyrot (DJs) e Marina Ribatski (voz) fazem dessa alegria de viver, de cantar, de dançar e de misturar os seus discos de adolescência a sua razão de ser. A que soam os Bonde do Rolé? Muito a funk, mas não são funk. Usam samples de guitarras de hard rock, mas não são rock. São, como quase tudo no Brasil, uma mistura sincrética que acaba por, contra as expectativas, soar decente e colocar os seus ouvintes a dançar. E carregam consigo a irreverência e a certeza arrogante da sua juventude. Em “Solta o Frango”, e perdoando o ataque à língua portuguesa, está o que pode muito bem ser um lema do Bonde: “A gente somos linda, a gente somos inteligente. Alegria da moçada, da perua favelada, nosso som é fantasia para mamãe e titia.”

Site Oficial: www.myspace.com/bondedorole

DATA ROCK

A cidade norueguesa de Bergen já nos tinha dado os Royksopp e os Kings of Convenience, agora dá-nos o prazer de usufruir dos Datarock. Que, segundo as palavras dos seus dois membros (Fredrik Saroea e Ket-Ill, juntos desde 2000), até nem sequer serão do melhor que se faz pela sua terrazinha natal. Dando de barato esta tendência para a auto-ironia, percebe-se que temos aqui um grupo que está na música pelo prazer da brincadeira, da descoberta da estranheza de instrumentos e sonoridades. Usam muitos teclados “vintage”, aparentemente “emprestados” pelos muitos amigos que vão entrando e saindo do grupo. Põem-nos os teclados a repetir vagas de linhas melódicas ingénuas, reminiscentes de uns Devo – que reconhecidamente veneram. As vozes são afectadas, as letras são propositadamente confusas, mas parecem falar sempre de situações pouco recomendáveis em madrugadas hedonistas. Ao vivo, juntam baixo e bateria demolidores. O resultado é um electropunk de base que oscila entre o minimal e o bombástico. Mas sempre bonacheirão.

Site Oficial: www.datarock.no

BALLA

“Depois de ter passado pelos Bizarra Locomotiva, Ik Mux, Boris Ex-Machina e Da Weasel, Armando Teixeira tem a seu cargo os projectos Bulllet e Balla. Em “A Grande Mentira”, o terceiro disco dos Balla, Armando Teixeira mostra um álbum onde se pode descobrir mais uma das suas 1001 facetas: canta pela primeira vez os 10 temas do disco! Considerado um dos melhores compositores, músicos e produtores no activo no nosso país, Armando Teixeira compôs, gravou, misturou e produziu um trabalho individual irrepreensível que se reflecte num disco de canções sem complexos. “A Grande Mentira” é pop, é electrónica, é erotismo, é raiva… Primeiro, porque se apoia no jogo de cumplicidades, de ilusões, de seduções e de concílios, e depois porque tem canções que desafiam, mais uma vez, as barreiras sonoras estilísticas.”

Site Oficial: www.myspace.com/ballaportugal

OS LAMBAS

Sambiganza é um dos muitos guetos da Grande Luanda, e é aí que estão sediados Os Lambas. Puto Nagrelha, Bruno King e Handeloy constituem uma das mais potentes formações da nova geração de artistas de kuduro, esse género musical tipicamente angolano que começa a vingar pelo Mundo fora. Os Lambas – que, no título do álbum de estreia do ano passado, se definiam como o “Estado-Maior do Kuduro” – fazem kuduro tradicional, duro, forte, com as linhas rítmicas implacáveis. Mas a nível temático já se afastam da ortodoxia: Puto Nagrelha avisa que o kuduro já saiu do gueto e alcança agora todas as camadas sociais de Angola. Assim, usam as letras para passar “boas mensagens” ao seu povo e pedem que se acabe com as ofensas entre os artistas. Mas isto não impede que continuem a gravar as suas músicas em Sambiganza com os DJs Marcel e Esqueleto, porque é o seu lugar, e querem utilizar os seus discos como rampas de lançamento de jovens locais que demonstrem aptidão para o kuduro.

NASTIO

Nástio de nome próprio, Mosquito de apelido. Ao que consta, porque este angolano, artista completo por excelência, usa e abusa de pseudónimos, projectos, encarnações e modalidades musicais nos mais diversos campos. Realiza vídeos, dirige “performances” em galerias de arte, faz leituras de poemas. E canta e toca e declama. A solo, com o grupo Homem Nu Com Faca no Bolso, ou com amigos vários. Salta pelo hip hop, pela pop, mas sem nunca largar de vista as suas raízes africanas. E sempre com a língua de Camões e Fernando Pessoa como trilho central, como constante que liga os vários países de expressão portuguesa. É que Nástio tem um objectivo de união sociocultural de todos que falam português. Nome do projecto que utiliza? “Beijinho no Rabo”. Porquê? Porque, como explica Nástio, é uma expressão de carinho, e todos precisam de carinho – especialmente o povo angolano após quatro décadas de guerra. Com música e letras de intervenção a resvalar para o surrealismo, é certa a picada nos concertos deste Mosquito.

Site Oficial: www.myspace.com/homemnufacanobolso

GENERAL LEVY + ROBBO RANX

General Levy e Robbo Ranx são amigos desde os anos 80, quando eram jovens MC’s em “soundystems” da Grande Londres. Desde aí, se reunirmos as suas carreiras teremos uma verdadeira enciclopédia da música urbana negra das últimas duas décadas. Sejam eles reggae, ragga, dancehall, drum’n’bass, garage ou jungle, e todos os interstícios entre eles, General Levy e Robbo Ranx passaram, de forma mais ou menos incisiva, por todos estes géneros. Agora, em conjunto no Festival Sudoeste TMN, continuam a sua campanha pela captura da melhor batida e do melhor “riddim”. Em palco, cada um escolhe a sua personagem, e partem os dois para um combate em que não há vencidos, apenas vencedores. General Levy é o extrovertido, imparável e, muitas vezes, inconveniente cantor. Robbo Ranx é o mais professoral e contido MC, que nunca abandona a sua função de divulgador – está ao leme de um premiado programa na BBC Radio especializado em dancehall. E deverá ser esta forma modernizada de electro-reggae que fará as delícias dos espectadores desta dupla dinâmica.

STEEL PULSE

Os Steel Pulse são uma das instituições do reggae britânico. Instituição não no sentido de cinzentismo instalado, mas de uma referência ética e racial. Fundados em 1975, em Birmingham, por filhos de famílias pobres imigrantes das Caraíbas, os Steel Pulse, liderados pelo vocalista e guitarrista David Hinds, habituaram-se desde cedo a remar contra a maré. Sem experiência musical e sem permissão para actuar nas salas para jamaicanos no Reino Unido devido às suas firmes convicções rastafarianas, passaram anos a acompanhar bandas punk como os Clash ou Stranglers. Ao longo de três décadas de carreira, mantiveram sempre os pés bem firmes no roots reggae de matriz marleyana, se bem que tenham também incluído pequenos toques de modernidade via o dance hall. Continuam a ser uma máquina bem oleada e certa nas suas convicções (educar as massas, combater as injustiças, lembrar heróis como Martin Luther King ou Nelson Mandela). E não se ficam pelas palavras: em 1991, o single “Taxi Driver” acompanhou uma acção colocada nos tribunais de Nova Iorque contra a companhia de táxis da cidade, cujos condutores eram acusados pelos Steel Pulse de discriminar os negros e especialmente os rastafarianos.

Site Oficial: www.steel-pulse.com

SOLDIERS OF JAH ARMY

Como nome de banda, Soldiers of Jah Army é logo à partida um programa completo. Um (pequeno) exército de músicos que usam o reggae para divulgar os ideais rastafarianos. São oriundos de Washington, cidade mais conhecida pela sua tradição de punk hardcore, mas os Soldiers professam a militância agressiva e potente recorrente nos grupos da capital norte-americana. O quinteto liderado pelo vocalista e guitarrista Jacob Hemphill (cujo apelido se pode traduzir livremente por “Colina do cânhamo”) é adepto de um roots reggae muito orgânico e simples, apimentado por algumas incursões de raiz rock. São autênticos animais de palco, onde aperfeiçoam o seu som e sua mensagem de abertura de mentes e de olhar para um mundo mais largo do que as salas de estar da “Middle America”. Estão juntos há uma dezena de anos, mas é o último álbum, “Get Wiser”, que entusiasmou os especialistas, que colocam agora estes jovens no restrito grupo dos nomes dos quais se espera o avanço do reggae norte-americano.

Site Oficial: www.sojamusic.com

MANIF3STOS

“Os Manif3stos iniciaram a sua intervenção musical e cultural no ano de 2005 bem perto de Lisboa – mais precisamente em Carcavelos. Influenciados por diferentes estilos e matrizes musicais e culturais, os membros da banda encontraram no grupo um tempo e um espaço que lhes permitiu encontrar um equilíbrio entre o Hip Hop e o Reggae com ares de Soul, Dance Hall, Drum & Bass e Electrónica. O texto e a palavra são elementos fundamentais na vida da banda pois e através deles que se procuram reflectir e representar múltiplas realidades sociais, culturais, tecnológicas e económicas em que vivemos. A banda não tem abdicado de se pronunciar sobre uma grande variedade de temas sociais, que preocupam os jovens e a sociedade em geral, tais como as doenças, a guerra ou a solidão. Mas também não têm deixado de se manifestar relativamente a outras questões, que respeitam igualmente a todas as pessoas, como por exemplo o amor, a amizade e as relações familiares.”

Site Oficial: www.myspace.com/manif3stos

GROOVE ARMADA

O Festival Sudoeste TMN sempre recebeu de braços abertos artistas carregados de grandes “beats” e “grooves” para animar as multidões nas noites de Agosto. Assim, nada mais acertado do que dar as boas-vindas aos Groove Armada. Estes dois ingleses, baptizados Tom Findlay e Andy Cato, gravam e actuam sob o nome Groove Armada desde 1996. E fazem-no muito bem, criando temas que nos pegam pelos pés e não nos largam. São big beat? São. Fazem techno? Sim. E tocam house? Mas claro. E no entanto… Ostentam orgulhosamente um som próprio, que é só Groove Armada. Intenso mas elegante. Ultradançável mas com muita cabecinha. A escolha de colaboradores é impecável, pelo que as vozes que colocam nas suas bases instrumentais são sempre infecciosas. Quem não se lembra da insinuante Grandma Funk, MC da Manumission (superdiscoteca de Ibiza) que derrete “I see you baby”? Em 2007, a Armada do Groove está de volta aos discos, e o seu melhor cartão-de-visita é “Get down”. O título diz tudo, e o som não falha. A 4 de Agosto, ao som de Cato, Findlay e sua banda, todos receberemos ordens para “shake” o nosso colectivo “ass”. É bom que aceitemos o repto.

Site Oficial: www.groovearmada.com

THE STREETS

Mike Skinner não seria a primeira escolha para uma representação da Inglaterra (sub)urbana deste início de século. Mas olhando para lá dos seus tenros 26 anos, da sua figura franzina e aparência discreta, vemos que carrega em si, tal como muitos outros, os empregos abaixo de Mac, os jantares de “take aways” de restaurantes indianos manhosos, as tardes em salas de jogos a tentar engatar miúdas de saias para lá de curtas. A diferença é que Skinner, sob o pseudónimo de The Streets, transpôs estas paisagens sociais para música. Com três álbuns no bolso, conseguiu uma mistura quase mágica de hip hop, drum’n’bass e garage que actualiza de forma intrinsecamente britânica as referências negras que foram inundando a consciência musical das terras de Sua Majestade. Neste 2007 em que vem encher o palco principal do Sudoeste TMN, Mike já é milionário, mas não é um homem em paz consigo. Os fatos dos melhores alfaiates de Londres vestem um homem que canta de forma metronómica, a tentar esquecer… até que chega a uma balada minimalista e percebemos que há ainda esperança no seu coração.

Site Oficial: www.the-streets.co.uk

SAM THE KID

Longo, penoso, polémico e ainda sem certeza de chegar a bom porto. Assim tem sido o percurso do hip hop nacional. Mas, mesmo assim, há já nomes incontornáveis e, para mal dos seus pecados, tendencialmente consensuais dentro do meio. Dentro desse restrito punhado, aparece Samuel Mira. Ou melhor, Sam The Kid. Sam é diminutivo de Samuel. Miúdo, já não é, embora a placidez da sua face pudesse induzir em erro. Tem 26 anos, e lança álbuns desde 1999. Discos em que mostra como se pode ser (quase) auto-suficiente, gravando em casa a partir de vinis, CDs, gravações de programas de televisão, telefonemas. Tudo, desde que daí possa tirar uma batida, uma palavra, um sentimento. Pepitas que vai retirando de uma mina, para juntar em filigranas musicais que escavam no amor e no ódio. No cinzento de um bairro, de uma cidade, de um país. Na indiferença que Sam sentia na pele enquanto artista e rapper, mas que, afinal, poderá já ser mais um passado do que um presente. Com o último álbum, “Prática(Mente)”, Sam The Kid passou para o lado dos poetas que reformulam a língua portuguesa. Não no karaoke, como comenta Sam na faixa-farol do disco, mas ao vivo, no momento, na garganta aberta e sentida.

Site Oficial: www.myspace.com/samthekid

SÉRGIO GODINHO

Quatro de Agosto não será um dia qualquer. Quatro de Agosto será o dia em que Sérgio Godinho sobe ao palco principal do Sudoeste TMN 2007. Aí estará um dos artistas fundamentais na história da música portuguesa das últimas quatro décadas. Um alquimista das palavras, um artesão do canto, um designer meticuloso das músicas. Não é necessário qualquer pretexto para se assistir a um concerto deste “irmão do meio” do meio musical nacional – mas há mais uma razão adicional: o último, e brilhante, “Ligação Directa”, um álbum de originais que demorou seis anos a surgir. Para além de “novos clássicos” como “Às vezes o amor”, Sérgio Godinho colocará a mão na sua enorme bolsa de canções, e revisitará palavras e melodias tatuadas na alma portuguesa. Algumas em formas canónicas, outras em arranjos contemporâneos – sim, que Sérgio Godinho tem essa dualidade deliciosa: mantém um pé na fidelidade ao que gravou em disco, mas não desiste de por vezes mudar radicalmente as suas obras. De qualquer forma, estarão reunidos os ingredientes para uma sucessão de grandes momentos. Um artista português de excepção, um público apreciador, e um festival que promove grandes encontros. Vamos ao encontro de Sérgio.

Site Oficial: www.myspace.com/sergiogodinhooficial

AIR TRAFFIC

A história acontece vezes e vezes sem conta por terras da Grã-Bretanha: quatro jovens de uma cidadezinha da província formam uma banda, querem a fama e o proveito, deslocalizam-se para Londres, conseguem uma minúscula edição de um single, são descobertos por um DJ influente, assinam por uma editora “major” e tornam-se a “next big thing”, por onde passa (algum do) futuro do rock. Demos os “nomes aos bois”: a banda chama-se Air Traffic, vêm de Bournemouth, e quem lhes deu a mão após ouvir o single “Just abuse me” foi Steve Lamacq, da BBC Radio – já assinaram pela EMI. A canção, para além do título apelativo, mostra bem o “template” destes controladores de tráfego aéreo: indie rock de boa cepa, propulsionado pelo piano e com cuidados na produção. Quando chegarem ao Festival Sudoeste TMN já trarão editado o álbum de estreia e mais um single de perdurar na orelha, “Charlotte”. Trarão consigo muitas canções de boa cepa, muita vontade de mostrar que vão chegar longe. É que a história acontece vezes e vezes sem conta por terras da Grã-Bretanha, e por vezes os quatro jovens da cidadezinha de província são mesmo uma bela descoberta para o grande mundo. Querem apostar que isso vai acontecer aos Air Traffic, mesmo à nossa frente, na Zambujeira?

Site Oficial: www.air-traffic.co.uk

AUSTRALIAN PINK FLOYD

Pink Floyd no Sudoeste TMN??? Sim!!! Todos juntinhos, Roger Waters, David Gilmour e companhia? Bem, não. Mas não há problema. Se Waters e Gilmour não conseguem fazer as pazes e marcar a mais aguardada reunião de supergrupos, ficamos então com os Australian Pink Floyd. Uma banda de tributo, sim, mas que soa tão bem como os verdadeiros Floyd. Que dizemos? Tão bem? Segundo testemunhos oculares, e auditivos, são melhores que os originais. Como o nome indica, são originários da Austrália – as capas dos álbuns dos Floyd transformadas com o logótipo de um canguru são impagáveis. Estão juntos desde 1988, mas apenas quando se radicaram em 1993 no reino Unido a carreira descolou. E de que maneira: já tocaram no famoso Royal Albert Hall londrino. E na festa dos 50 anos de David Gilmour. Os Australian Pink Floyd são, na realidade, uma grande obra de amor, uma imensa celebração de um dos maiores filões de música dos anos 70 e 80. Pelo palco principal do Festival, na madrugada de 4 de Agosto, o grupo pode escolher de entre os vários álbuns que sabe de cor, e tocar, por exemplo, canções de fogueira para milhares como “Wish you were here” ou “Money”. Para cantar em boa companhia.

Site Oficial: www.aussiefloyd.com

KOOP

Em 12 anos de carreira, o duo sueco Koop apenas editou três álbuns de originais. Não admira: Oscar Simonsson e Magnus Zingmark fazem tudo em formato de corte e cola com samples. Tudo o que se ouve a nível instrumental, ou seja, os beats, as cordas, os sopros, é cuidadosamente escolhido na sua imensa colecção de discos e bases de sons, e depois carinhosamente conectado para fazer canções. Só as vozes são “genuínas”, cortesia de várias vocalistas convidadas. E todo este processo demora muito tempo. Os Koop acabam, então, por ter nas mãos álbuns que parecem pequenas sinfonias orquestrais. Nas primeiras abordagens, estavam mais próximos das paragens electrónica/ambient/chill out; no último “Koop Islands”, rumaram para mais longe, para as Caraíbas da primeira metade do século XX, e pediram emprestadas percussões selvagens e ritmos em cavalgada. Quanto aos próprios Koop, não têm dúvidas: ”Criamos jazz. É tão simples quanto isso. Não conseguimos fazer pop, electrónica ou techno, simplesmente não somos bons nisso. Sabendo isso, aceitámos que basicamente podemos fazer tudo o que nos vier à cabeça.”

Site Oficial: www.myspace.com/koop

PATRICK WOLF

Patrick Wolf tem apenas 23 anos, mas, e parafraseando uma velhinha canção de Suzanne Vega, “a sabedoria dos seus olhos nega o número dos seus anos”. Porque desde muito cedo, mais exactamente desde os 12 anos, este irlandês começou a mostrar dotes para uma muito variada excentricidade artística. A saber: brincadeiras com velhos teclados e theremins, cantigas de rua com troupes de perpetradores de “white noise”, aulas bem académicas de violino. Os resultados de tudo disto estão registados em três álbuns que desafiam catalogações, mas a que dificilmente resistem aqueles que gostam de saborosas canções (compostas pelo próprio Patrick) em que a luxúria e a voluptuosidade surgem por entre os espaços deixados livres pelas nuvens de teclados e cordas. Passagens rítmicas inesperadas e uma voz que se deixa vergar aos seus mais íntimos desejos e fantasias completam o naipe. No Festival Sudoeste TMN, Patrick Wolf ainda estará tomado de grandes amores com o seu recente álbum “The Magic Position”. O título, ao que consta, é retirado do clássico livro indiano “Kama Sutra”. Prevê-se tempos de sensualidade sonora deste “lobo” por terras alentejanas.

Site Oficial: www.patrickwolf.com

SONDRE LERCHE

Mais um jovem prodígio a desafiar catalogação. E da Noruega. Chama-se Sondre Lerche, e traz debaixo do bolso recordações muito diversas. Os clássicos pop dos compatriotas A-ha que os irmãos mais velhos tocavam na aparelhagem. As aulas de viola clássica. Os concertos em formato acústico que dava em bares ainda adolescente. E, por fim, os álbuns que já lançou. As chamadas “Duper Sessions” mostram o seu lado mais convencional, jazzy, com baladas subtis em formato tradicional e embrulhadas em swing e belas orquestrações. Mas já o último “Phantom Punch”, gravado com a sua banda Faces Down, é uma dose impressionante de energia. Onze canções de espírito punk gravadas num “take”, irrequietas e repletas de guitarras. A inspiração para esta última encarnação proveio de ter passado muitas noites do ano passado a fazer primeiras partes de Elvis Costello. Nas palavras do compositor, cantor e guitarrista de Bergen: “Ver Elvis com a sua banda a tocar o material rockeiro todas as noites realmente encheu-me de energia.” E seria difícil para um jovem alternadamente meigo e violento ter melhor mestre do que Costello. No Sudoeste TMN, teremos oportunidade para ver as duas faces do norueguês das mil melodias.

Site Oficial: www.sondrelerche.com

SONIC JUNIOR

Mais um exemplo da efervescência criativa que ataca o Nordeste do Brasil, o projecto Sonic Junior provém de Maceió, capital de Alagoas. Terá algumas pequenas ligações ao mangue beat, mas no essencial utiliza o seu remoto porto de abrigo para fazer música de dança que se parece muito pouco com o que ouvimos habitualmente. Sonic Junior é uma ideia avançada e dirigida pelo percussionista, letrista e vocalista Juninho, um homem que se iniciou pelos campos do ska-punk mas cuja vida levou uma volta quando em 1999 comprou um “groove box” Roland 303, como que começou a criar bases de bateria e baixo electrónicas. Desde então, com três álbuns no activo, os Sonic Junior têm passado muito tempo a explorar as partes melódicas e harmónicas a colocar nas suas bases rítmicas, criando colagens de alta densidade. Buscam inspiração em poetas da liberdade como Manu Chao e Jorge Ben e, nas suas palavras, continuam, “com muitas experimentações, à procura do verdadeiro som electrónico orgânico brasileiro”.

Site Oficial: www.sonicjunior.com.br

VANESSA DA MATA

Aos três anos Vanessa da Mata já queria ser cantora. Foi um caminho inescapável que a levou a sair muito nova da sua pequena cidade natal no interior de Mato Grosso. O pai não queria que seguisse a via artística, pelo que o pretexto para abrir as asas foi um curso de Medicina que nunca fez. Na grande metrópole de São Paulo começou a cantar em bares e a sua voz, suave mas potente, doce mas senhora de si, chegou a ouvidos tão importantes como Milton Nascimento e Maria Bethânia. Vanessa da Mata queria também ser compositora, mas pensava que não podia sem saber tocar um instrumento. Afinal, esta brasileira de 32 anos tem uma imaginação fértil e a capacidade de criar canções mesmo à flor da pele: escreve em qualquer sítio, em qualquer circunstância. E as suas composições, que tanto bebem em tradicionais sertanejos e Roberto Carlos como em excêntricos como Bjork, chegaram às vozes de, entre outros, Daniela Mercury e Ana Carolina. Ao Sudoeste TMN a cantora traz o seu mais recente álbum, “Sim”, que conta com um convidado de luxo: o norte-americano Ben Harper, com quem gravou o tema “Boa sorte/Good luck”. Boa sorte de quem apanhar na Zambujeira esta voz, das mais marcantes da actualidade brasileira.

Site Oficial: www.vanessadamata.com.br

TIAGO BETTENCOURT

Assim que os Toranja entraram em hibernação amigável em finais de 2006, o vocalista, guitarrista e compositor Tiago Bettencourt lançou-se à tarefa de colocar de pé o seu álbum de estreia a solo. E são essas canções que Tiago Bettencourt vem apresentar em primeira mão ao Festival Sudoeste TMN. Das ditas canções sabe-se ainda pouco, mas é certo que foram gravadas no Canadá, com produção de Howard Bilerman, ligado às aventuras dos Arcade Fire, e escolhidas quinze de um grupo de quarenta compostas durante os três anos que os Toranja andaram em digressão. A acompanhar Tiago Bettencourt estão o contrabaixista Pedro Gonçalves (Dead Combo) e o baterista João Lencastre, habitual colaborador dos Blasted Mechanism. Ao serviço dos Toranja, Tiago Bettencourt destacou-se pela qualidade das suas letras, vinhetas sentidas da intimidade urbana, entregues sob um manto de melodias muito trabalhadas. Agora a solo, não há qualquer razão para duvidar que o trovador não aumente ainda mais a parada das suas canções.

Site Oficial: www.myspace.com/tiagobettencourt

ETA CARINAE

Eta Carinae é o nome da estrela mais brilhante da nossa galáxia, e é o nome de um dos mais interessantes projectos alternativos da actual música brasileira. Sob a batuta do vocalista/guitarrista Dirceu Melo, este quinteto de Recife, Pernambuco, parte de bases rítmicas electrónicas, a que junta harmonias regionais como o baião e elementos percussivos nacionais como o samba. O resultado é um som que valoriza os tons nordestinos e brasileiros, mas que aspira a uma universalidade. É música para pensar com todo o corpo e todos os sentidos, que não tem pejo em, apesar da sua modernidade, se assumir como devedora dos estados alterados do psicadelismo e da procura de soluções interiores para as tensões do mundo. “Graça maior” ou “Loa do mar” são dois dos temas que têm perpassado pelo Myspace e levantado no mundo digital o nome destes cinco jovens brasileiros que abrirão em pacíficas vibrações o palco Planeta Sudoeste no dia 4.

Site Oficial: www.myspace.com/etacarinae

SOUNDS PORTUGUESES (NO JOKE, NU BAI E JULAH JAH)

 

A cultura de Soundsystems (colectivos de dj’s e mc’s) tem estado a crescer muito nos últimos anos em Portgual e por causa disso a Positive Vibes resolveu dar a oportunidade há 3 representantes do reggae nacional para animar a noite de dia 4 de Agosto a seguir aos concertos. Os escolhidos foram os No Joke, Nu Bai e Julah Jah, estes últimos vencedores do primeiro soundclash português. Uma excelente oportunidade para descobrir os melhores sons do reggae roots e dancehall pela mão de soundsystems nacionais.

SAIAN SUPA CREW

Após uma década a lançar bombas musicais pelo mundo fora, chega a Portugal a Saïan Supa Crew. Uma espécie de supergrupo da música urbana francesa, este colectivo junta elementos de diferentes grupos que nesta equipa podem dar azo às misturas mais diversas. Actualmente são cinco: Sir Samuel, Sly, Feniksi, Vicelow, Leeroy e Specta. Sobre uma base de hip hop, juntam reggae, soul, r&b, soul ou zouk, e mais, se lhes apetecer – e normalmente apetece. E nunca dispensam o “human beatbox”, essa outra disciplina fundamental do hip hop. Autodenominam-se uma associação de benfeitores de hip hop, e não estão longe da verdade, pois as suas visões muito abertas trazem frescura ao género. Ao terceiro álbum (“Hold Up”, 2006), estes descendentes de famílias migrantes continuam a rappar deslizantemente sobre racismo, droga e violência global, mas não deixam de lado a doçura das relações. Para o Festival Sudoeste TMN, a chegada desta equipa será uma verdadeira bomba para o Palco Positive Vibes.

Site Oficial: www.saiansupacrew.com

MARTIN JONDO

Duas palavras definem Martin Jondo: “Rainbow Warrior”. Transporta consigo na pele um arco-íris de locais, desde a Coreia da sua mãe até a Alemanha do seu pai, da Jamaica onde foi buscar inspiração até à Babilónia mítica que procura. “Warrior” do guerreiro que é, lutando para marcar o seu terreno numa área – o reggae germânico – dominada pela sombra gigante de Gentleman. Não se sejam inimigos: foi Gentleman que deu a Martin a primeira mão, ao levá-lo em “tournée” como vendedor de T-shirts e aproveitando para o colocar a cantar em palco, em dueto, todas as noites, uma canção. Que se chamava “Rainbow Warrior”, exactamente, e foi composta numa zona rural a norte de Berlim, onde o antigo Leste e Oeste se chocavam. Martin tenta com a sua guitarra e voz seguir a espiritualidade da religião rastafariana, não abandonando, no entanto, a placidez oriental que recebeu da sua mãe. Nunca se arrependeu de ter abandonado a universidade para seguir o sonho. Ao ouvirmos a sua voz pura e serena, percebemos que pelo menos da sua Babilónia já encontrou um pouco. Porque é livre a cantar. Como diz a (sua) canção: “Down in babylon we’re chanting songs of freedom”.

Site Oficial: www.martinjondo.com

STEPACIDE

Os Stepacide são seis, e são de Cascais. Terra de sol, mar, praias. De música. Excelente e fértil terreno, portanto, para o reggae. E, segundo o próprio grupo, para música que se mantenha fiel às raízes e cultura rastafariana via Jamaica, mas também à sua herança europeia. Ou seja, vogam por entre as mais venerandas formas de ska e roots, mas piscam dois (bronzeados) olhos ao dancehall. Como influências, citam Sizzla, os “pais” Steel Pulse ou os compatriotas Primitive Reason. Mas os pontos altos de uma curta carreira – iniciada em Janeiro de 2004 – foram partilhar o palco com duas lendas do reggae: Alpha Blondy e Gregory Isaacs. Há nestes jovens uma frescura contagiante, vinda de seis músicos que de início, ainda adolescentes e nunca tendo tocado noutros grupos, foram instintivamente chegando a um ponto de encontro comum para todos, que era o reggae. Essa música universal e apelativa. Como terminam os Stepacide: “O dancehall reggae tem tudo a ver com refrões contagiantes.”

PHOENIX

Os Phoenix são um quarteto de rock indie, e escolheram como nome uma cidade emblemática de uma certa maneira de estar nas franjas mais áridas dos novos sons americanos. Mas não são um típico quarteto de rock indie, e são franceses. Desenvolvendo: os Phoenix foram criados, nos subúrbios de Paris nos anos 90, numa dieta baseada em krautrock, mas andaram anos a vegetar pelo circuito de bares de província a tocar versões de “standards” country, e de Prince. E depois conheceram os seus compatriotas Air. Como corolário desta educação variada em ideias e sons, surge o som tipicamente Phoenix. Alternadamente frios, rigorosos, implacáveis como os seus heróis germânicos dos anos70, ou calorosos, quase quase quentes, a roçar um “white groove”, ou sonhadores, a resvalarem para um ambiente planante que não estaria mal num tema dos… Air. Do último álbum, “It’s Never Been Like That”, diz o vocalista Thomas Mars: “Há brutalidade neste disco.” Há, mas é uma brutalidade com vistas tão largas, tão acolhedora, tão imponente, que nos sentimos bem quando aceitamos submeter-nos.

RAZORLIGHT

Johnny Borrell é uma estrela. Por ser o vocalista, guitarrista e compositor dos Razorlight, sim, mas por mais do que isso. Porque, no seu íntimo, sempre soube que iria ser uma estrela. Andou muitos anos à procura da sua imagem, inspirando no espírito de Dylan ou Lennon, Bowie ou Dylan. No virar do século, fazia parte dos novos lobos que tomaram de assalto a cena rock britânica, pegando na tocha abandonada pelos britpoppers chefiados pelos Oasis. À frente do seu quarteto, Borrell notabilizou-se também pela acidez da língua e pela imensa capacidade de fazer inimigos no meio musical. Agora, quando vem o Festival Sudoeste TMN promover o segundo álbum do grupo, simplesmente intitulado “Razorlight”, é um homem mais calmo, mas sempre sabendo para onde quer levar a sua carreira. Os Razorlight trazem neste último álbum canções simples, directas, produzidas de forma incisiva e sem mariquices por um produtor que já trabalhou com os Sex Pistols. São temas que mostram a vida de Johnny, o homem-criança que se espanta e comove com os estranhos Estados da “America” ou com o que encontra, ou não, na sua cabeça e na sua cama na manhã seguinte, tudo explicado em “In the morning”. Exuberantes, dramáticos e sempre à beira do precipício, assim são os concertos desta estrela, Johnny Borrell.

BABYLON CIRCUS

A posição central de França no continente europeu tem permitido que no “grande hexágono” surjam projectos que recolhem influências a torto e a direito, a norte, sul, leste e oeste. Mais exactamente, no caso dos Babylon Circus, de Lyon: do oeste colhem os blues, o jazz, o ska, o reggae. Do norte, o punk. Do leste, a música de raiz cigana. E do sul, os ritmos do Magrebe. A isto, os dez músicos misturam um gosto muito particular pelas artes circenses. Um espectáculo dos Babylon Circus é mais do que uma exposição de canções rebeldes e iconoclastas em ambiente de grande folia. É, também, uma ocasião para juntar a exuberância e exibicionismo das artes dos palhaços, dos acrobatas, dos equilibristas. A dança e a mímica nunca estão longe deste circo da Babilónia. Há quem lhes chame ingénuos e desajustados dos tempos que correm, mas a verdade é exactamente a oposta: nestes momentos de cinismo empedernido, é necessário quem encare a música e a dança impertinentes como uma forma absoluta de respiração e combatividade. Gentes, histórias, sentimentos fortes, luz e som em desvario, suor a escorrer por todos os corpos: eis, então, uma antevisão do que espera o palco principal do Festival Sudoeste TMN.

THE NATIONAL

The National é um dos segredos mais bem guardados do actual rock norte-americano, e achamos que está na altura de deixar de o ser. Para que o maior número de melómanos os possam apreciar, trazemos o quinteto nova-iorquino para actuar no último dia do Festival Sudoeste TMN. E o que tocam os The National? O som reporta, sem ser nenhum destes estilos em concreto, para o country rock, para o sadcore de cabaret, para o pop de câmara. Servidos pelo grandioso barítono do vocalista Matt Berninger, os The National escrevem e servem pequenas peças de tragédia, vidas quebradas e sinas impossíveis de largar. São canções para amantes e pecadores, claramente embrenhadas nas mitologias das estradas e bares norte-americanos mas que conseguem transcender as suas raízes para se tornarem universais. “Boxer” é o nome do último álbum, mas o título do CD de 2003 pode bem configurar a experiência destes poderosos indie-rockers: “Sad Songs For Dirty Lovers”. Imperdíveis no dia 5 de Agosto na Zambujeira do Mar.

OF MONTREAL

A cidade de Athens, Geórgia, tem uma preocupante relação habitantes / músicos de qualidade. Desde os “avós” B52’s e os “papas” REM, é toda uma maneira simultaneamente heterodoxa e tradicional de encarar as possibilidades de fazer uma canção. Um dos muitos artistas que assentaram arraiais pela cidade sulista é Kevin Barnes, que organizou a sua vida à volta do projecto Of Montreal. Prolífico, inventivo, contraditório, consegue a proeza que é surpreender, nem que seja um pouco, em tudo o que edita. Estamos aqui em áreas que aceitam como coordenadas alguns dos nomes mais melódicos mas subterraneamente desfeitos dos anos 60, como Byrds ou The Mamas and The Papas. A que, claro, junta toadas modernas, em tons depressivos, sombrios e, mesmo, maníacos. É Kevin quem afirma: “Nos primeiros discos tinha a cabeça fechada, apenas queria ouvir coisas feitas nos anos 60 ou 70. A produção moderna punha-me maluco. Mas depois houve uma mudança, e nos últimos anos procurei música contemporânea que me faça sentir mais ligado à minha geração e ao mundo do meu tempo.” Todo um programa, pronto para ser explanado no Sudoeste.

TRAIL OF DEAD

Estranha banda, estes And You Will Know Us By The Trail of Dead (de futuro nomeados apenas como Trail of Dead para efeitos de brevidade). Estão sedeados em Austin, Texas, cidade em cujo festival SXSW passam muitos dos vectores que definem os maiores arrojos da música rock contemporânea. O que significa que os Trail of Dead estão no sítio certo, dado que desde 1994 este quinteto liderado pelos vocalistas/guitarristas Jason Reece e Conrad Keely faz discos que apelam fortemente quer a lados viscerais, quer a lados cerebrais de quem os ouve. São alternativos, são violentos, mas também são cultos. Escutar temas dos Trail of Dead, ou assistir a um concerto seu, significa usualmente que nos assomam sensações que nem sabíamos que tínhamos. Não é fácil, requer uma dose de perseverança e sabedoria, mas o resultado compensa. Rock erudito que mexe com as entranhas, logo não pode ser nenhuma perda de tempo. Trail of Dead, então: podem ler a extensa descrição que fazem deles próprios no seu “site”. E que afinal é apenas uma história da música ocidental desde os tempos pitagóricos. É lógico.

TARA PERDIDA

Punks veteranos não morrem, diz o ditado. O que fazem, então? Continuam a apostar no que sabem fazer e sempre fizeram. No caso concreto, o veterano das guerras do punk em Portugal é João Ribas, que após o fim das aventuras nos Ku de Judas e, principalmente, nos míticos Censurados, decidiu em 1995 que estava na hora de voltar. E em boa hora o fez, pois desde então os Tara Perdida têm levantado bem alto a bandeira do punk rock hardcore em Portugal. Bandeira essa que será, então, hasteada no Palco Planeta Sudoeste no dia 5 de Agosto por Ribas (voz), Ruka e Ganso (guitarras), Jimmix (baixo) e Rodrigo (bateria). Na senda do que fazem sempre, sempre, contamos então com momentos de controlo da festança dos espectadores através da confiança na força das guitarras bem cerradas, na percussão demolidora, no vozeirão de Ribas, e na força da união colectiva. Nos concertos dos Tara Perdida perde-se quilos em suor, mas sai-se sempre bem disposto, e disposto a não voltar (pelo menos imediatamente…) à rotina bem pensante e entediante. E essa é já uma vitória de João Ribas e seus rapazes.

2008

Em 2006, três jovens da Maia, Grande Porto, ganharam o concurso TMN Garage Sessions. O nome da banda? 2008. Que será o ano de afirmação deste trio de pop/rockers, estamos certos. Mas para já estamos no ano de 2007, e os 2008 têm aí o single “Acordes com arroz” (o tal do refrão infeccioso “Ó céu, faz chuva em mim!!!”), antes de entrarem em estúdio para gravarem o álbum de estreia para a multinacional EMI. Pedro Pode, Nicolau Fernandes e André Aires recuperam o canónico formato de trio guitarra/baixo/bateria, e injectam-lhe energia, visão global e uma decisão sobre os caminhos a tomar que surpreendem num estágio tão inicial. E as estas características, indispensáveis a um grupo que se quer rock, juntam uma capacidade de compor canções com pormenores inventivos e letras ligeiramente desconcertantes. Houve quem falasse em aproximações ao espírito dos extintos Ornatos Violeta. O estatuto de promessas com capacidades para se afirmarem pelo próprio pé ninguém lhes retira.

RUI VARGAS

Rui Vargas é um dos mais importantes DJs portugueses, com uma carreira que nunca abandonou a procura da melhor house do planeta. Mas tem outra característica: é o único artista que tocou em todas as edições do Festival Sudoeste. Este ano repete-se a tradição: o programador musical da mítica discoteca lisboeta Lux vai fechar a madrugada de dia 2 no Palco Planeta Sudoeste.

STEREO ADDICTION

Stereo Addiction é o resultado da junção de esforços de dois DJs portugueses, Gustavo (Rodrigues) e John-E (João Reis). Encontraram-se em 2001, após anos de voltas ao mundo à procura da batida perfeita. Primeiro escolheram o pseudónimo Zoom, e vogavam pelas áreas do trance. Depois mudaram a denominação para Stereo Addiction, e passaram a experimentar mais as sonoridades do techno, da house e do electro. Na última madrugada do Festival Sudoeste TMN, Gustavo e John-E mostrarão porque são considerados como dois dos mais interessantes e inovadores manipuladores de sons das noites portuguesas, quer com as misturas de temas alheios, quer com as produções próprias. A batida, essa, nunca pára.

POW POW MOVEMENT

No mundo dos grandes soundsystems de reggae, ser jamaicano era quase obrigatório, ou pelo menos aconselhável. Por isso, é de notar a persistência dos Pow Pow Movement, quinteto da cidade alemã de Colónia. A viagem deste movimento teve início em princípios da década de 90, quando o produtor Ingo desenvolveu o seu amor pelo dancehall que provinha da Jamaica e iniciou a promoção de festas de divulgação pela zona de Colónia. No som, estava o seu soundsystem, que retira o nome Pow Pow de uma saudação usada nas pistas de dança jamaicanas e que imita o som de dois tiros. Apesar disso, a mensagem era de paz e de integração cultural e racial. Depois de anos a passar as canções de outros artistas e de as transformarem nos pratos, os Pow Pow decidiram em 2001 começar a produzir os seus próprios temas. Para as vozes, contavam agora com os MC Devon e Jr. Carl. Para além disso, lançam a sua editora, que é abrigo para nomes definitivos do movimento reggae europeu como Gentleman. Para acompanhar no Sudoeste TMN, os Pow Pow Movement – que se definem como “a melhor máquina de mistura da Europa” – trazem outro companheiro de editora, o cantor jamaicano Elijah Prophet.

TIKEN JAH FAKOLY

Tiken Jah Fakoly é um guerreiro. Forte, alto, poderoso, carrega consigo diferentes responsabilidades. Primeiro, a continuação da divulgação do reggae na África Ocidental. Depois, manter a língua francesa bem dentro do género nascido na Jamaica, na senda do seu antecessor Alpha Blondy. Por fim, denunciar os tantos, tantos problemas que assolam o seu país, a Costa do Marfim. Para centenas de milhares de jovens marfinenses desalojados pela guerra civil, Tiken Jah Fakoly é um herói, uma voz a seguir. Proveniente de uma família guerreira com raízes no grande império mandinga, Tiken é um advogado do povo, que vê engrossar os conflitos étnicos e religiosos e a corrupção. Advoga sobre um reggae claramente jamaicano – com colaboração da dupla Sly & Robbie no álbum “Francafrique””, e gravação de último “Cours d’histoire” no lendário estúdio Tuff Gong de Kingston –, mas com um hipnotismo vocal bem africano. Diz com tristeza que quanto mais o seu país se afunda mais ele é popular. Mas não deixará de cantar até a sina da Costa do Marfim se alterar. Para testemunhar no Palco Positive Vibes do Festival Sudoeste TMN.

YELLOWMAN

Mesmo num ambiente fértil em personalidades muito características como é o meio musical jamaicano, Yellowman destaca-se facilmente. Antes de mais porque é albino numa ilha negra, o que por si carrega um forte estigma social. Mas o homem baptizado Winston Foster trocou as voltas ao que se esperava de si: através do amor pela música, passou de intocável num orfanato de Kingston para um dos mais importantes artistas jamaicanos. Nos anos 80, após a morte do patriarca Bob Marley, o “homem amarelo” esteve na vanguarda dos que transformaram a paisagem do reggae, modernizando-o, electrificando-o e tornando-o no que é hoje o dancehall. Yellowman revelou-se um espectacular toaster, cantando/falando/rappando numa forma única, muitas vezes improvisando no momento. Por outro lado, especializou-se em sexualizar e violentizar as temáticas das canções. Se por um lado defendeu tal abordagem, devido à necessidade de, com humor e ironia, se afirmar e adaptar às mudanças sociais que então se operavam, por outro não pôde escamotear as acusações de incitamento ao sexismo, homofobia e violência. Nos últimos anos, e após graves problemas de saúde, mitigou os exageros, e mantém agora, como podemos perceber no Palco Positive Vibes do Sudoeste TMN, um equilíbrio musical e lírico que expõe toda a importância de Yellowman na evolução do reggae.

ALIOUNE K

Filho de mãe francesa e pai maliano, Alioune K é um cantor, compositor e multiinstrumentista de formação clássica que junta nas suas actuações as raízes africanas, nomeadamente a kora (instrumento de corda tradicional da África Ocidental) e a língua bambara, e o reggae. Um reggae muito melódico, sentimental, romântico, e que recebe ainda algumas pitadas tiradas ao universo do jazz. Alioune K partilhou palcos e trocou experiências com nomes tão importantes como Jimmy Cliff, os Wailers, Ray Lema e Manu Dibango e, recebeu a bênção de dois dos grandes nomes do reggae africano de expressão francesa: Alpha Blondy e Tiken Jah Fakoly. Actualmente, mantém fortes ligações a Portugal, pois dirige os discos da sua companheira Arlinda Mestre. Acompanhado pela Charlie Skunk Band, Alioune K traz ao Sudoeste TMN uma música intimista, rica em harmonias, por vezes muito acústica, e que faz a ponte entre a tradição africana e a modernidade ocidental.

 

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